
Contrio os músculos, agarro-me ao travesseiro, enfio nele a cabeça, mordo os lábios sufocando o grito mais profundo. "Isso não pode esta acontecendo comigo! Não de novo!" Os ponteiros das horas em meu relógio de pulso já não se movem em sintonia comum aos dos minutos. O tempo para. A sensação de rouquidão sobe minha garganta, perco o ar... Debato-me sob a cama em movimentos bruscos. Sinto a punhalada de uma faca ao meu peito, mesmo sem a tê-la. Sorrio de forma descontrolada, a sensação de pertubação me contagia por inteiro.
Num único suspiuro lembro-me de todo o ocorrido: "Inicio de madrugada, um pequeno homem esquivado sobre um beco qualquer, carregava em sua mão direita um objeto pontiagudo. Mais ao longo, uma moça branca de longos cabelos castanhos e profundos olhos azuis, andava sobre passos apressados, quase que aos tropeços. Seu olhar se perdia em desespero, parecia não dever estar ali..."
Aquele ser noturno atraente e de feição ingênua, atraía-me de forma intensa e compulsiva. Sim, eu era o pequeno homem esquivado sobre o beco cuja a mão carregava uma pequena faca. Num rápido e minucioso movimento encostei aquela moça sobre o beco sem nem ao menos saber sua procedência e, ali mesmo a fiz tragar o próprio ar com um corte perfeito e simétrico em sua delicada garganta. Agonizou por menos que dez segundos. Despediu-se de mim com um olhar profundo.
Aquela sensação de poder sobre a vida e morte me enchia de prazer. Toquei os lábios do cadáver com um beijo, o que me traduziu um imenso erotismo. Porém não me satisfiz. Levei o cadáver para um casebre longe da cidade grande onde eu costumava "trabalhar" minhas vítimas. Sem pestanejar, esquarteijei aquela mulher feito um porco a ser coziso. Triturei sua carne e por fim me servi de um banquete delicioso feito de algumas partes de seu corpo. Mas daquela vez foi um tanto diferente. A sensação de prazer se esvaiu de rapidamente e deu conta a uma pertubadora melancolia.
Já fazia um certo tempo que eu decidira parar de roubar almas. Aquela sensação de ter quebrado o pacto com minha própria decisão fazia-me criar um sentimento de ódio e repulsa por mim mesmo. Mas era quase que impossível me controlar, a abstnência do meu ritual sagrado era algo que me corroia as entranhas. Eu já não tinha fé em Deus e menos no Diabo. Minha punica crença era na morte e em seu doce gosto.
Deitado sob mais uma cama de mais um quarto de hotel de beira de estrada. Numa madrugada cizenta e amarga, continuo meu desespero... Relembrando e relembrando todas as minhas vítimas. A agonia preenche meu ser. A vontade que meus pensamentos se calem não passa. Às vezes queria recomeçar de uma maneira diferente, poder esquecer toda essa psicose que me envolve. Não vejo a mim forma cabível de sanar minha loucura e calar meus pensamentos, a não ser tomar do próprio veneno que venho jorrando a anos, a morte.
Percebo que em meu bolso ainda se encontra a faca a qual, há poucas horas, tomei por fim a vida daquela moça de profundos olhos azuis. Talvez em um raro momento de sanidade, mando a pequena faca de encontro a minha garganta. "Agonizo por menos que dez segundos". Tinjo os lençóis da cama num tom escuro de vermelho. Tomo por fim minha obsessiva ilusão, apenas o fruto de um coração solitário. Caio no esquecimento, MORRO!
FIM